31/01/11

ROGÉRIO DO CARMO





A ESPERA

Esperar… Esperar o quê? E porquê? E para quê?
 Para quê esperar? Eu espero, tu esperas, ele espera,
 nós esperamos, vós espereis, eles esperam… Esperamos o quê?

Esperei eternidades para que um certo espermatezoide
 ganhasse vida, ganhasse forma, ganhasse cor!
 Esperei que certo incauto óvolo estivesse lá,
exposto no centro do Universo,
 à espera de ser agredido, ser fecundado!
 Esperei ser concebido, ser fectus, ser vida, e vida ainda toda por viver!
Esperei para ter olhos para tudo ver, tudo contemplar, ter mãos
 para tudo possuir, tudo arrancar!
Ter pernas para distender, meus caminhos desbravar!
 Ter braços para erguer, as estrelas baralhar!
 Ter cérebro, encéfalo, fabulosa fábrica de
tantos sonhos ainda todos por desvendar!

No ventre de minha mãe, para ver a luz do dia, nove meses sufoquei!
 E o dia já no alto, o sol a pique fazia tudo cintilar!
Esperei que me cortassem o cordão umbilical, da Vida,
o primeiro empurrão! Esperei que me mostrassem o bico do seio onde,
 pela primeira vez, àvida e impùdicamente, iria abocar,
a vida sorver, minha boca lambuzar! Esperei que o tempo passasse,
 que eu crescesse, para as minhas pernas as fazer correr, as fazer cavalgar!
 Que os meus braços se alongassem, para o mundo abarcar,
meu objectivo atingir, o meu sonho alcançar!
Que minha boca a todos vos sorrisse,
 que ela entumecesse para tantas bocas entreabrir, tantas bocas desfolhar!
Que minhas mãos, feitas para tudo colher, como nenúfars,
 se abrissem mansamente para tudo apenas aflorar!
Que meus olhos chegassem ao parapeito da minha alta janela para verem,
 simplesmente, na rua, os carros apenas a passar!
 Esperei que algo se passasse e tudo ainda por acontecer,
 tudo ainda por concretizar!
Esperei para ir para a rua brincar, jogar à bola,
ir para a escola e tudo, na vida, aprender!
 Ao meio dia, na sopa dos pobres, sempre fiz a bicha e, à noitinha,
aguardei o beijo de minha mãe quando, no meu colchão
 de carapelas, ela me vinha aconchegar!
Esperei ter dez anos para ir trabalhar,
 para não morrer de fome, e o mundo descobrir, o mundo conquistar!
 Esperei pela minha adolescência para deixar de ser criança e pela
 minha maturidade para criança deixar de ser,
 e a criança ainda por amamentar!
Esperei que a barba me nascesse, meu sexo se desenvolvesse,
 meu primeiro orgasmo se manifestar,
 a minha primeira ejaculação me assustasse!
 Para ir para a tropa e ser homem, a pátria defender!
E homem continuo por ser e pátria ainda por ter, e
 minhas raizes ainda todas por plantar!
 Esperei por ti para contigo me casar, para que meus filhos pudesses ter,
 meus filhos me pudesses dar, mas sempre caminhei sem nunca me deter,
 procurei-me sem nunca me encontrar!
Esperei o correio, cartas sem resposta
 que nunca foram escritas, chamadas ainda por discar!
 Esperei-te no Café da esquina e o café ainda arrefecendo, e tu ainda por chegar!
Esperei-te na igreja e o orgão ainda por tocar, o vinho por servir, as pétalas por atirar!
 Esperei-te na frescura da fonte e minha bilha ainda por encher, ainda por quebrar!
Esperei-te na ensolarada margem do rio e minha roupa ainda por torcer, ainda por córar!
 No isolamento do vão da minha janela, debruçado sobre as
 minhas rubras sardinheiras, continuo à tua espera,
 e tu na minha rua sem nunca lá passar!
 Espero-te no Aeroporto e teu passaporte ainda por carimbar!
 Na vida, ainda espero a vida que tu ainda me poderias dar!
Onde me esperas tu, em que cadeira te sentas tu,
 deixando o Tempo, impunemente, nos afaster?
 No fumo dos meus cigarros flutaua ainda a transparência de todos os meus
 sonhos desmesurados e meus sonhos ainda todos por realizar!
 Espero agora a morte e a morte ainda por despontar!
No silêncio do cemintério te espero e os crisântemos aindo todos por semear!
 Depois, para a terra me comer, cinco anos terei ainda que gramar!
 Mais cinco anos de presença na terra, ainda assegurar!

Depois, que mais posso eu ainda aguardar?
Que à terra meus ossos venham arrancar, para com eles
 fazerem carcomidos relógios de sol, para que o Sol, pelo tempo fóra,
 possa ainda minha sombra projectar?

Que esperas tu? Que espero eu? Que esperam todos?
Que o Tempo venha, um dia, inesperadamente, a recuar?…

Paris, 21 de Fevereiro de 1991





Não preciso que me compreendam
ao mundo não direi quem sou
cortarei as cordas que me prendam
e ninguém saberá para onde vou!

Apenas restos mortais a serem deitados fora!
 De preferência a serem postos no forno com umas batatinhas à volta!
 Quando finalmente partir, não quero deixar nada para trás!
Sobretudo os ossos para fazerem pentes!
 No entanto, bem gostaria que, durante algum tempo,
se lembrassem que um dia existi!


 


 

8 comentários:

Sonhadora disse...

Minha querida

Hoje trouxeste um senhor poeta, poesia muito profunda que adorei.

Beijinhos com carinho
Sonhadora

Luís Coelho disse...

Esperei porque a vida é feita de esperas.
Acreditamos porque esperamos que alguma coisa seja diferente depois do adeus, depois do amanhã....

Anónimo disse...

Obrigado, Céu, por me teres feito redescobrir este meu enorme poema! Tinha-me esquecido da sua existência, e descobri com grande prazer que, realmente, modéstia à parte, talvez eu seja realmente um grande Poeta das Luminárias...

Valéria Sorohan disse...

Amei. Criativo, simples, e diz muito e faz a gente refletir sobre a vida.

BeijooO*

Mario disse...

A história de uma vida magnificamente transformada em poema... e tantos sonhos à espera de se realizarem...
A ti, Céu, felicito-te pela coragem de publicares um poema tão longo, mas pequeno demais quando se acaba de ler... porque ficou a vontade de que nunca mais terminasse.
Gostei!

Rita Contreiras disse...

A existência nos provoca muitos questionamentos...Viver é algo muito complexo, mas é bom...!

Karina disse...

cada vez descubro mais coisas nesse mundo virtual. Não há só coisas ruins, como alguns dizens. basta esperar que as pessoas certas aparecem e com elas, lindas estórias, poesias e pensamentos.
Obrigada
Karina

♥ ♣ ֵֶєρσ¢ค ∂σяค∂คֵֶ♣ ♥ disse...

Hola Ceu, qué preciosidad de blog. Entiendo más o menos tus palabras...aunque me cuesta jeje..
Feliz día guapa y un besito dorado para ti.

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